Editorial Editorial

 

Daenerys e Bolsonaro

 

A conclusão de Game of Thrones, ainda que tenha trazido desfechos satisfatórios para parte de seus personagens, sofreu dos mesmos males que afligiram a série durante toda sua oitava temporada: o desenvolvimento apressado e as soluções rasas que. no fim das contas, não fizeram justiça à história e aos personagens que foram tão cuidadosamente elaborados pela maior parte dos últimos oito anos.

A virada de Daenerys em direção à tirania populista, ponto mais polêmico de toda a temporada, teve de ser didaticamente explicada por Tyrion: 'Enquanto ela matava homens maus, nós comemoramos. E ela se tornou cada vez mais certa de que era boa e justa’. A ideia era mostrar como o poder e a busca por ele podem corromper - o que sempre foi o grande tema da série -. mas a fala soou mais como uma tentativa de ilustrar, às pressas, aquilo que a série não teve tempo de mostrar nos episódios anteriores.

Ao menos, a Mãe dos Dragões teve a chance de se expressar nesse episódio, ao contrário do que aconteceu com o penúltimo, que optou por não mostrar o rosto da personagem enquanto ela atacava Porto Real após os sinos da rendição soarem. Em um dos pontos altos do capítulo, e um dos grandes momentos da atriz Emilia Clarke na série. Daenerys deu um discurso impressionante diante de suas tropas - provando que não estava propriamente louca, mas cega pela ambição. Seu *quebrar a roda’, no fim das contas, não tinha nada a ver com a verdadeira revolução, mas com sua própria ascensão ao poder.

O mesmo está acontecendo aqui no Brasil, segundo o jornal britânico Financial Times, depois de cinco meses de governo do presidente Jair Bolsonaro, seus três filhos emergiram como uma força poderosa que está mudando a política brasileira.

Isso alimentou temores de que eles estejam exercendo influência política indevida e buscando consolidar uma nova dinastia política, em um país com um histórico longo e contencioso de política familiar.

O motivo para que a questão seja controversa é que Flávio, Carlos e Eduardo —os três filhos de Bolsonaro, por ordem de idade— vêm falando sem medir palavras desde a posse de seu pai em janeiro.

Não é fofoca. Bolsonaro mesmo fala publicamente sobre o quanto seus filhos são importantes. Eles exercem o poder de muitas maneiras, de ditar publicamente as prioridades políticas a falar em nome de seu pai.

Como aconteceu na série Game Of Thrones, a rainha Daenerys queria quebrar a roda para ascender o poder total, aqui embora a política brasileira sempre tenha tido clãs familiares influentes, nenhum se espalhou pelos escalões mais altos do poder como os Bolsonaros.

Em geral, os resultados de dinastias como essas nunca são bons para os países, como vemos nos Kirchner, de esquerda, na Argentina, e nos Fujimori, de direita, no Peru.